DECÁLOGO DO VOTO ÉTICO (CRISTÃO) – 1994 (Em 16/02/2026)
Estamos em um ano eleitoral. E, pelo que parece, tudo indica que pode ser um ano muito difícil, por conta de toda essa polarização em que nos metemos, além de “otras cositas más” que nos rondam por aí.
Por isso, deixo aqui um recordatório de um texto datado de 1994 e publicado pela Associação Evangélica Brasileira (AEvB), presidida então pelo Reverendo Caio Fábio, a maior liderança no campo evangélico da época, intitulado “DECÁLOGO DO VOTO ÉTICO”.
Conforme postagem do próprio Reverendo, ele declara que esse texto trata de estabelecer “alguns balizamentos fundamentais sobre o uso ético do voto evangélico, conforme o sumário de propostas defendidas na Conferência da AEvB (…) para tentar diminuir, desde então, a confusão e a manipulação que já existiam profusamente no meio evangélico no país inteiro”.
A razão de eu republicar o texto é o seu caráter premonitório (profético talvez?), na medida em que tudo o que foi apontado e orientado nesse manifesto foi praticado ao contrário pelo blocão em que se convencionou chamar de “evangélicos” no Brasil a partir de 2013.
Outra razão é que eu acho útil expandir a aplicabilidade do texto não somente aos evangélicos, mas a todos os cristãos, das mais diversas correntes e denominações.
Logo, essa publicação tem dupla função. É um recordatório, como já mencionei, mas também é um alerta para que as consciências possam ser despertas neste ano tão importante para o país.
O objetivo aqui não é impor uma visão nem direcionar nada, nenhum votinho que seja, em quem quer que seja, mas tão somente apresentar pontos que parecem ter sido deixados de lado e que são basilares para o exercício de uma vida cristã inserida na sociedade de modo saudável, que saiba exercer os seus direitos e mesmo a sua obrigação de participar do processo político de forma ativa, coerente e consciente.
A questão aqui é não esquecer que há um padrão a ser seguido, que deveria estar de acordo com os princípios mais básicos do Evangelho – o amor – que parecem estar tão em desuso atualmente.
Por isso, o voto deve ser decidido com discernimento, racionalidade e temperança, não com o fígado ou por cabresto. Desse modo, o texto em questão não perdeu a sua atualidade; muito pelo contrário, ele ganha tração e importância diante do estado de coisas que vivemos no país hoje.
Sendo assim, segue o texto abaixo, na íntegra:
DECÁLOGO DO VOTO ÉTICO – 1994
I. O voto é intransferível e inegociável. Com ele o cristão expressa sua consciência como cidadão. Por isso, o voto precisa refletir a compreensão que o cristão tem de seu País, Estado e Município;
II. O cristão não deve violar a sua consciência política. Ele não deve negar sua maneira de ver a realidade social, mesmo que um líder da igreja tente conduzir o voto da comunidade noutra direção;
III. Os pastores e líderes têm obrigação de orientar os fiéis sobre como votar com ética e com discernimento. No entanto, a bem de sua credibilidade, o pastor evitará transformar o processo de elucidação política num projeto de manipulação e indução político-partidário;
IV. Os líderes evangélicos devem ser lúcidos e democráticos. Portanto, melhor do que indicar em quem a comunidade deve votar é organizar debates multipartidários, nos quais, simultânea ou alternadamente, representantes das correntes partidárias possam ser ouvidos sem preconceitos;
V. A diversidade social, econômica e ideológica que caracteriza a igreja evangélica no Brasil impõe que não sejam conduzidos processos de apoio a candidatos ou partidos dentro da igreja, sob pena de constranger os eleitores (o que é criminoso) e de dividir a comunidade;
VI. Nenhum cristão deve se sentir obrigado a votar em um candidato pelo simples fato de ele se confessar cristão evangélico. Antes disso, os evangélicos devem discernir se os candidatos ditos cristãos são pessoas lúcidas e comprometidos com as causas de justiça e da verdade. E mais: é fundamental que o candidato evangélico queira se eleger para propósitos maiores do que apenas defender os interesses imediatos de um grupo religioso ou de uma denominação evangélica. É óbvio que a igreja tem interesses que passam também pela dimensão político-institucional. Todavia, é mesquinho e pequeno demais pretender eleger alguém apenas para defender interesses restritos às causas temporais da igreja. Um político de fé evangélica tem que ser, sobretudo, um evangélico na política e não apenas um “despachante” de igrejas. Ao defender os direitos universais do homem, a democracia, o estado leigo, entre outras conquistas, o cristão estará defendendo a Igreja.
VII. Os fins não justificam os meios. Portanto, o eleitor cristão não deve jamais aceitar a desculpa de que um evangélico político votou de determinada maneira porque obteve a promessa de que, em assim fazendo, conseguiria alguns benefícios para a igreja, sejam rádios, concessões de TV, terrenos para templos, linhas de crédito bancário, propriedades, tratamento especial perante a lei ou outros “trocos”, ainda que menores. Conquanto todos assumamos que nos bastidores da política haja acordos e composições de interesse, não se pode, entretanto, admitir que tais “acertos” impliquem na prostituição da consciência cristã, mesmo que a “recompensa” seja, aparentemente, muito boa para a expansão da causa evangélica. Jesus Cristo não aceitou ganhar os “reinos deste mundo” por quaisquer meios, Ele preferiu o caminho da cruz.
VIII. Os votos para Presidente da República e para cargos majoritários devem, sobretudo, basear-se em programas de governo, e no conjunto das forças partidárias por detrás de tais candidaturas que, no Brasil, são, em extremo, determinantes; não em função de “boatos” do tipo: “O candidato tal é ateu”; ou: “O fulano vai fechar as igrejas”; ou: “O sicrano não vai dar nada para os evangélicos”; ou ainda: “O beltrano é bom porque dará muito para os evangélicos”. É bom saber que a Constituição do país não dá a quem quer que seja o poder de limitar a liberdade religiosa de qualquer grupo. Além disso, é válido observar que aqueles que espalham tais boatos, quase sempre, têm a intenção de induzir os votos dos eleitores assustados e impressionados, na direção de um candidato com o qual estejam comprometidos.
IX. Sempre que um eleitor evangélico estiver diante de um impasse do tipo: “o candidato evangélico é ótimo, mas seu partido não é o que eu gosto”, é compreensível que dê um “voto de confiança” a esse irmão na fé, desde que ele tenha as qualificações para o cargo. Entretanto, é de bom alvitre considerar que ninguém atua sozinho, por melhor que seja o irmão, em questão, ele dificilmente transcenderá a agremiação política de que é membro, ou as forças políticas que o apoiem.
X. Nenhum eleitor evangélico deve se sentir culpado por ter opinião política diferente da de seu pastor ou líder espiritual. O pastor deve ser obedecido em tudo aquilo que ensina sobre a Palavra de Deus, de acordo com ela. No entanto, no âmbito político-partidário, a opinião do pastor deve ser ouvida apenas como a palavra de um cidadão, e não como uma profecia divina.
REFERÊNCIAS:
Este texto foi elaborado quando o Reverendo Caio Fábio era Presidente da Associação Evangélica Brasileira (AEVB). “Se há 25 anos atrás isto era importantíssimo, hoje se tornou muito mais do que importante” (Caio Fábio).
https://pt.wikipedia.org/wiki/Associa%C3%A7%C3%A3o_Evang%C3%A9lica_Brasileira
Texto adaptado a partir da seguinte postagem no facebook – https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1204346256283462&id=405107339540695&set=a.926848737366550
https://www.ultimato.com.br/conteudo/decalogo-do-voto-evangelico
CRÉDITO IMAGEM: https://www.folhape.com.br/colunistas/blogdafolha/a-forca-do-voto-evangelico/4143/ (arte/folha pernambuco)