Creio, sem querer crer, quase não crendo…mas creio. (29/12/25)
Eu escrevo esse texto em lágrimas doloridas, mas escrevo, e começo sem querer começar. Mas começo porque preciso, e começo bem assim:
Contingência, de acordo com o significado da palavra é um “fato imprevisível ou fortuito que escapa ao controle; caráter do que é contingente”.
Contingente, portanto, seria algo “que pode ou não ocorrer; incerto, duvidoso”.
Contingência, para Agostinho, é, “é uma característica fundamental da realidade criada, que aponta para a existência de um Criador eterno e necessário”.
Não sei se concordo com Agostinho.
Porque sinto que a fé é uma dessas coisas contingentes.
Sim, creio que a fé é contingente.
E isso não muda o fato de que eu também acredite que a experiência e a expressão da fé, mesmo partindo desse lugar de incerteza existam, sejam reais a até mesmo contingencialmente necessárias.
Apesar disso, não posso deixar de observar que a experiência e expressão da fé são sensíveis a tudo que temos ao nosso redor. É sensível ao sensível literalmente, mesmo que o sensível aqui não seja sinônimo de material.
A crença “necessária” para mim se torna um problema porque para existir ela precisa ser invariável quando os seres humanos, que são aqueles que creem ou não, são tudo menos invariáveis.
Somos instáveis e impermanentes.
Seria essa contingência a necessidade diante da qual precisamos muitos de nós de crer em algo necessário e permanente? Fica a questão.
O meu ponto é o ponto que toca muita gente, como crer diante do absurdo?
Como crer diante do aleatório, do caótico até mesmo do inusitado?
Como crer quando alguém nasce com uma série de problemas de saúde, síndromes genéticas (combinatória pura à la Dawkins?), que o faz chegar ao mundo já de entrada com várias incapacidades?
Como crer quando essas incapacidades aleatoriamente distribuídas e em nada merecidas (prefiro pensar assim) o impediriam literalmente de viver se não fosse por meio da dependência total de outros seres humanos?
Como crer sabendo que pelas mesmas incapacidades jamais viverá uma vida como os demais membros da espécie alinhados ao que chamamos ponto central da curva normal e que, portanto, nunca pegará sozinho um ônibus cheio, nunca vai conseguir um trabalho, nunca vai sair por aí caminhando sem rumo contra o vento, e nem vai realmente poder escolher o que comer ou o que vestir?
Como crer sabendo que, a ele só restou o bullying disfarçado de favor que a comunidade faz por ele?
Como crer sabendo que, além disso tudo, que por pura sorte adquiriu uma bactéria (uma criatura também?) super-resistente a tudo que os humanos já tentaram inventar para matá-la mas que insiste diligentemente em molestar e acabar com a já não fácil vida desse alguém?
Essas são perguntas difíceis de responder para qualquer um que pare um minuto para pensar nelas.
Eu não tenho resposta, eu também tento não ter raiva, mas eu fico perplexo, muito perplexo e sem força para me debater diante delas.
Para os teólogos então, ufffff, brigamos com esse tal do “problema do mal” há quase um milênio.
E tudo isso me leva para as duas velhas perguntas mais bobas das religiões (o que não implica em serem desimportantes) e por consequência da Teologia: “Quem é Deus?” e “Onde está Deus?”
Eu, na verdade, olhando ao meu redor eu não consigo responder nenhuma das duas sem precisar que usar um clichê cafona e hipócrita. Por isso não tenho o mais mínimo interesse em respondê-las.
Assim que na real, eu não sei por onde ele anda sabe?
Mas eu acho que o Pastor Henrique Vieira (com quem concordo muito e discordo muito) naquele momento então pastor, hoje pastor-deputado, conseguiu colocar a questão, de uma maneira muito bonita e capturar uma fração do que eu sinto quando me deparo com a pergunta “Quem é Deus?” ou melhor ainda, com a pergunta “Onde está Deus?”.
Quando perguntado por Lázaro Ramos há mais ou menos 6 anos, no programa “Espelho” da TV Brasil quem era Deus o Pastor Henrique Vieira respondeu bem assim, e abaixo reproduzo a transcrição do diálogo:
LÁZARO RAMOS: o que é que é deus?
HENRIQUE VIEIRA: é o amor encarnado
LÁZARO RAMOS: Ah, não faz isso comigo Henrique. Não dá. Pra mim Deus não é aquele rapaz de barba branca. O que é Deus? Porque a gente tá falando aqui, eu tô fazendo essa provocação porque a gente tá falando aqui, primeiro para pessoas de variadas crenças, gente inclusive que não acredita em nada disso e esse conceito de Deus às vezes encaixa no lugar de mistério ou [em] uma figura que foi criada há muito tempo atrás para gente ter um sossego né? [por] que eu entendo assim, mas, o que é Deus? O que é Deus?
HENRIQUE VIEIRA: Em primeiro lugar, para ser Deus, eu não teria e não posso ter condições de responder totalmente essa pergunta. Acho que esse é o primeiro elemento. Porque Deus é sempre mistério, sempre a um passo a mais e além de tudo o que eu consigo dizer sobre ele, ou sobre ela. Deus escapa. Deus é indomesticável. Deus é indefinível. Deus está naquele silêncio diante do absurdo. Porque Deus talvez seja o absurdo. Se existe algo que eu posso dizer sobre esse mistério, sobre esse silêncio, se [há] algum conteúdo nesse vazio é o amor encarnado. Deus é a fonte originária de todo o amor. O endereço de Deus na terra é onde o amor se manifesta e se materializa, portanto não é uma doutrina não é um dogma nem menor ou restrito a uma experiência religiosa. Se existe alguma voz nesse silêncio é quando o amor encarnado, materializado se faz no mundo. Eu só posso dizer isso. Além disso eu não sei o que dizer. Quando eu falei agora pouco com você que eu creio quase não crendo, mas não conseguindo deixar de crer, isso não é só retórica, é verdade. Eu sou indignado com as injustiças do mundo e me dá vontade de gritar com Deus quando eu penso que enquanto nós conversamos tem a barriga de uma criança roncando por fome nesse mundo. Isso me dá raiva, e eu me pergunto: Onde é que está você? Qual a sua autoridade de se dizer Deus se o mundo produz isso? Eu estava lendo uma notícia um dia desses de uma mãe que São Paulo a [sua] criança de 3 anos saiu rapidinho de seu colo. Do colo da mãe, e saiu pela porta do metrô na hora que a porta estava fechando, daí ela tentou voltar desesperada. Desceu na estação. Voltou. Cadê a criança? A criança entrou no túnel. 3 anos [de idade] e morreu! Eu eu creio com raiva, porque isso não podia acontecer não irmão! Nem a prevalência dos poderosos, nem essas aleatoriedades que em três segundos uma mãe perde um filho no metrô de São Paulo. Portanto, Deus não é o controlador do mundo senão ele é mau. Deus é o silêncio. Deus é a criança de três anos e a lágrima da mãe. Só creio em Deus, porque creio que ele morre junto com a humanidade. Todo-Poderoso para mim não faz sentido. Todo-Amor, Todo-frágil, demasiadamente humano com a gente. É só o que eu posso dizer sobre Deus.
A mim, o que consigo dizer hoje é que eu creio, sem querer crer, quase não crendo…nesse Deus que é o silêncio…silêncio presente e retumbante, mas silêncio…ao mesmo tempo mistério tremendo e demasiadamente humano.
IMAGEM: CRÉDITO: https://unsplash.com/pt-br/fotografias/cadeira-vazia-perto-da-janela-AxZNLcEHNIs — Vruyr Martirosyan