Self-made person?!? (17/11/25)

O que significa uma self-made person? Para mim, isso soa mais como manifesto de época do que como fato. Eu, humanista pragmático com uma pitada de cinismo, tenho dificuldade em aceitar a ideia, simplesmente porque vivemos imersos em ambiente tão complexo, numa rede tão intrincada de variáveis, a maioria delas incontroláveis, que um indivíduo, consciente de certos fatos da vida e com um mínimo de honestidade intelectual, não pode atribuir o sucesso ou o fracasso de alguém, seja no plano biológico (vida) e/ou econômico (sustento), ambos interligados, como fruto exclusivo das suas próprias ações.
As pessoas tendem a desprezar ou conscientemente esquecer, que estar e permanecer vivos é a nossa função animal primordial. Precisamos entender isso para que daí tudo decorra, já que esse fato é básico e essencial.
Aqui é que o conceito de autossuficiência revela seu ponto cego, já que, ao preconizar a noção de que alguém “se faz sozinho”, ignora que não há existência humana sem cooperação. Nascemos e crescemos dentro de redes de vínculos e apoios. Não as perceber revela uma dissonância séria que não permite reconhecer que, sem a cooperação, nem indivíduo nem espécie subsistem.
Dito isso, tendo a acreditar que, abstraindo por um momento o complicador real da questão, que é o papel do acaso (pense em um “cisne negro”), há pessoas que, por diversos fatores individuais, desenvolvem uma habilidade especial de ler, consciente ou, na maior parte dos casos, inconsciente as possibilidades que têm diante de si e que, de alguma maneira (rápido e devagar?), tendem a tomar as decisões que maximizam os seus resultados.
Vale lembrar que a melhor forma de se manter vivo é desenvolver a habilidade de controlar o acesso aos meios básicos para a sua existência, a saber: acesso ao sustento material, a capacidade de se proteger e a capacidade de se reproduzir. As três são fundamentais para a perpetuação da espécie. Nesse caso, talvez, pudéssemos aplicar o conceito de autossuficiência, com todas as suas limitações, pelo menos em nível operacional.
Mas bastaria um olhar despretensioso para a história para mostrar que tais necessidades não são viáveis sem o acúmulo de excedentes produtivos (econômicos), e que é por meio da abundância econômica, que se lançam as bases para a construção de alianças e de cooperação mais eficientes, tanto para os indivíduos como para a espécie, que, por sua vez, proporcionarão o acúmulo de poder necessário para uma maior sensação de estabilidade e permanência em sua corrida para mitigar a contingência da vida.
Creio que essa perspectiva ajuda a entender o mundo — para o bem e para o mal.
Em suma, se você se considera uma self-made person (a expressão consagrada “self-made man” já traz um viés interessante), cuidado: você pode estar bastante equivocado.
Você pode ter sido eficiente em suas escolhas e decisões e alcançado essa segurança (aparente) para si e para o grupo ao seu redor. Porém, não se esqueça de que eles também são indivíduos que estão buscando a mesma coisa que você — permanecer vivos — e que a decisão de estar ao seu lado também está baseada em subsistir e estar em segurança, e por aí vai.
Claro que a questão é muito mais complexa do que isso. Não pretendo nem posso esgotá-la. Apenas penso alto.
Mas preciso voltar ao tema do acaso, essa turbulência do sistema, que, de certa forma, temo nos governar, que me incomoda e que não pode ser desprezado por muito tempo, como propus fazer acima a bem da argumentação. A coisa é muito mais complicada do que o chavão “estar na hora certa e no lugar certo” possa nos indicar.
Se aceitarmos o acaso, a meritocracia funciona até a página dois, já que explica o desempenho individual dentro de condições dadas, mas, de novo, o conceito de self-made person se desmonta diante da realidade dado que ele é falho ao ignorar a distribuição inicial dos excedentes, as redes construídas a que o indivíduo pertence e o acaso (sorte).
Quando você olha para o mundo com uma lente mais ampla, considerando a humanidade como uma espécie (creia você no que quiser), se fomos criados, quem nos criou, nos fez inseridos em um sistema ultracomplexo que entendemos mal porque dele sabemos muito, muito pouco, e por isso, nos convém um pouco mais de humildade e aceitar melhor o nosso nível de ignorância antes de cravar qualquer definição acerca de nós mesmos.
Tenho a impressão de que somos muito mais bicho e muito mais interconectados do que gostaríamos.
Há muito mais a dizer sobre esse tema que me assombra e fascina.
Voltaremos ao assunto.
Arte: “O Self Made Man” escultura da artista Bobbie Carlyle de 2024
Fonte:https://www.facebook.com/atelierfazendoartedmc/posts/o-self-made-man-%C3%A9-uma-escultura-da-artista-de-loveland-bobbie-carlyle-que-retrat/4265312580149067/
(Em 17/11/25)